CINEMA X MEDICINA
Nos filmes de mocinho e bandido quem apanha mesmo é a medicina. Em nome da arte (e da bilheteria) diretores transformam roteiros policais em autenticas obras de ficção, produzindo socos que nunca atingem órgãos internos, explosões que poupam a vida dos heróis e tiros no ombro, resolvidos com gaze e esparadrapo.
A coisa piora quando o herói é internado. Ele inevitalmvelmente fugirá do hospital retirando fios e soros como se fossem decalques e tratando enfermeiras, médicos e seguranças do hospital como autênticos idiotas
Certa vez, vi num filme uma anciã internada num asilo dando seus remédios, diariamente, aos animais do jardim durante seu passeio matinal.Como se em alguma clínica geriátrica americana a enfermagem não a fizesse engolir os comprimidos bem à sua frente.
Também gosto de personagens policiais inteligentes, mas não se pode assegurar a causa mortis de ninguém apenas analisando a superfície do corpo (pele, unhas, ouvidos e boca), como a maioria deles faz; parece bobagem, mas na vida real isto dificulta algumas famílias a aceitarem uma recomendação médica de necrópsia aprofundada, que se faça necessária.
O problema não é a ficção e nem a fantasia, pois isso tudo faz parte da arte, e sim o ensinamento equivocado que estes disparates passam às novas gerações de cinéfilos. Héroi de filme que se prezem não procuram médico nem hospitais. Afinal, poucas cenas adiante já o veremos recuperado e correndo atrás do bandido – quando, na verdade, após o que passou, só teria esse vigor e essa memória alguns dias depois.
A arte não precisa dispensar nem debochar da medicina para se sair bem comercialmente. Temos hoje algumas séries na TV que tratam de temas médicos e de hospitais com seriedade, e têm boa audiência nacional e internacional. Se o cinema já concordou em não fazer apologia ao crime e ao uso de drogas, também poderia aderir à idéia de não desinformar quanto à saúde, mostrando perigos na tela com suas verdadeiras dimensões e valorizando as instituições e os profissionais que aprenderam a preservar a vida, tanto de mocinhos quanto de bandidos.
Afinal, as almas deles até podem ser diferentes, mas seus corpos são iguais.
*Dr. Gustavo Leal de Meirelles é neurocirurgião e coordenador da ASDIN.